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Como perfurar seu corpo 500 vezes com um espeto de churrasco e ficar feliz

Nuno Cobra Jr.

05/02/2020 04h00

Crédito: DANÄVAZ/ reprodução do Instagram

Esta é a descrição de uma lipoaspiração do livro "Nu e Vestido, Dez Antropólogos Revelam a Cultura do Corpo Carioca":

"São oitenta picadas em menos de dois minutos. O ritmo frenético não para. Através de um corte de um centímetro de largura, feito pouco acima do cóccix, o médico introduz uma cânula com 30 centímetros de comprimento e quatro milímetros de diâmetro, parecida com um espeto de churrasco feito de teflon. A gordura entra por um buraco na ponta e é sugada pela cânula. O médico empurra e puxa o espeto sem parar, com extrema intensidade (…). Depois de quinze minutos, cavoucando para a direita e para a esquerda, ele descansa (…). É preciso um pouco de força e velocidade para vencer as placas de gordura (…), terminada a cirurgia, o médico sai da sala e tira o avental. Sua camisa está encharcada de suor."

Agora, tente imaginar alguém cavoucando e perfurando o seu corpo, mais de 500 vezes seguidas (80 vezes a cada dois minutos), utilizando um espeto de churrasco, com tamanha força, e você então entenderá a agressão ao seu corpo embutida nessa prática. Detalhe: caso não mude seus hábitos, toda a gordura voltará para o mesmo lugar, algum tempo depois.

O modelo de beleza atual distorce a realidade

Nas últimas décadas, o marketing do consumo plantou em seu inconsciente, sem que você perceba, um ideal extremo e radical de perfeição corporal, esse bombardeio ocorre diariamente, de forma subliminar, por meio de outdoors, TVs, revistas, mídias sociais e etc… A função desse ideal é fomentar a insatisfação e associar esse modelo corporal à conquista da felicidade – você só será feliz quando tiver um corpo perfeito – duas estratégias de venda bastante eficientes.

Como a perfeição não existe, enquanto não chega lá você é fidelizado pela "indústria bilionária do corpo perfeito" (dietas, academias, suplementos, equipamentos, clínicas estéticas, alimentos low-carb, termogênicos, uma imensa linha de produtos farmacêuticos e mais de 30 itens). O sarrafo não para de subir, o corpo da moda é um corpo extremamente magro, musculoso, rígido ou "bombado". A estratégia funciona, pois quem não se adequa está insatisfeito e quem está próximo a esse ideal, nunca está satisfeito — sempre dá para melhorar um pouco mais — ambos devem seguir diversas fórmulas instantâneas e milagrosas de ganho muscular e emagrecimento propagadas por esse mercado.

Para confirmar essa escalada dos modelos de beleza, faça a seguinte experiência: procure uma foto do Batman na década de 1970. Pelos modelos atuais, ele seria considerado fraco e balofo; em seguida, veja como o corpo do Batman vai se transformando, a cada década, até chegar aos dias de hoje, em que ele virou um herói anabolizado, praticamente uma montanha de músculos, com volume e definição muscular irreais e absurdos.

Como resultado dessa distorção, meninas e meninos de 6 a 10 anos já sofrem de graves questões de saúde ligados à insatisfação corporal, tais como depressão, anorexia e transtornos alimentares, entre outros. Segundo minhas pesquisas, isso é apenas a ponta do iceberg, os efeitos colaterais dessa "cultura do corpo perfeito" são incomensuráveis, representando uma grave questão de saúde pública atual, a lista é enorme. (Saiba mais em: Manifesto em defesa do corpo).

Afinal, qual percentual da população tem um corpo ultra musculoso e "perfeito", igual ao da capa da revista de Fitness? Analisando com mais profundidade, vemos que esse percentual equivale a menos de 1% da população. Você acha justo que essa minoria submeta os outros 99% a esse modelo insano e radical de perfeição corporal?

A magreza intencional e extrema vai contra a saúde e a beleza em todos os sentidos

Ter uma boa reserva de gordura é tudo o que nossa saúde nos pede. Estar um pouco acima do peso, de dois a cinco quilos, seria o cenário ideal para nossa saúde, beleza e vitalidade. As mulheres, principalmente após os 40 anos, sentem uma enorme dificuldade em perder peso. O organismo busca a qualquer custo economizar energia e armazenar gordura, já que isso irá protegê-lo da osteoporose. Depois dos 40 anos, ter um baixo índice de gordura é fatal aos ossos, à pele, aos músculos e à beleza, de forma geral. Toda a nossa herança evolutiva, durante milhões de anos, selecionou apenas os indivíduos que eram capazes de manter esta reserva de gordura. Ir contra isso é ir contra a nossa natureza, contra a própria vida.

Quem cai neste "conto de fadas fitness", acreditando num modelo artificial, está apenas sendo conduzido de forma cega e obediente ao que lhe impõe o mercado de consumo. Segue pela vida feito boiada, obedecendo ao que lhe mandam fazer e abdicando da sua própria identidade. Pergunto-me quando nos daremos conta de que o bacana não é seguir o que está na moda. O bacana é  ter identidade.

Outro dia, fui a uma festa bastante chique, estilo "high society". Chegando lá, fiquei um pouco assustado. Todas as mulheres pareciam iguais, com o cabelo loiro, comprido, alisado e perfeito. Todas usavam o mesmo tipo de roupa, bolsa e "vestiam" também o mesmo modelo de corpo, extremamente definido e malhado. Saí correndo de lá, na mesma hora. Em um mundo onde todos seguem o mesmo padrão, valorizar as suas diferenças e imperfeições significa assumir a sua singularidade, o que, consequentemente, o torna uma pessoa muito mais interessante e diferenciada.

"ENQUANTO ESTIVER PREOCUPADO COM O QUE OS OUTROS PENSAM SOBRE VOCÊ, VOCÊ PERTENCE A ELES. SÓ QUANDO DEIXA DE BUSCAR A APROVAÇÃO EXTERNA, VOCÊ SE TORNA DONO DE SI MESMO." (Neale Walsch)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro “O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal” defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Sobre o blog

Aqui, Nuno Cobra Jr. propõe uma pequena revolução: pensar o corpo e o treinamento físico através de um prisma filosófico, integral e multidisciplinar. Ele pretende dar voz e visibilidade ao Movimento Treinamento Consciente, uma resposta à cultura de treinamento baseada na dor e no sofrimento. Esse movimento agrega fisioterapeutas, doutores em educação física, fisiologistas, ortopedistas, cardiologistas e nutricionistas, entre outros. A missão desse espaço é criar uma comunicação entre estes profissionais, expandir o conhecimento e fomentar na população a consciência no cuidado com o corpo.

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