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Valorizar o erro fez de Ayrton Senna um piloto completo

Nuno Cobra Jr.

19/02/2020 04h00

Crédito: Reprodução/thrillist

Tive o privilégio de acompanhar o treinamento físico e mental do Ayrton durante 11 anos. Meu pai, Nuno Cobra, teve um papel fundamental em sua carreira e acompanhar esse processo foi a melhor escola que eu poderia ter.

Depois que um atleta se torna um mito, parece que ele já nasceu pronto, mas ninguém que caminhe sobre a terra é sobre-humano, o Ayrton tinha grandes qualidades e grandes defeitos como qualquer ser humano. E, aqui, encontramos um dos segredos do seu sucesso: não ter medo de olhar para os seus defeitos.
A maioria de nós, tende a valorizar e reforçar nossos pontos fortes e, consequentemente, evitar e menosprezar nossos pontos fracos, porém nos diferenciamos ainda mais da massa quando trabalhamos nossos pontos fracos, fortalecendo e sanando essas "brechas" comportamentais, mentais e competitivas.

Manter-se competitivo requer uma reformulação e um auto aperfeiçoamento constante, como o caso do tenista Rafael Nadal, por exemplo, durante muitos anos, o seu saque e o jogo de rede eram dois pontos fracos, porém, nos anos seguintes, ele reverteu, com muito treino e determinação, esses "buracos" em seu jogo. Com o Ayrton era a mesma coisa, trabalhar seus pontos fracos era quase uma obsessão.

Errar não é humano

Errar não é humano, errar é parte integrante da natureza. Dos seres microscópicos e celulares aos maiores mamíferos, todos erram, a diferença é que nós atribuímos a esse fenômeno a qualidade de algo negativo. Os animais não têm medo de errar e, por isso, repetem uma ação, insistentemente, até que consigam realizá-la.

Imagine um leão na selva africana que, de repente, após diversas tentativas infrutíferas, desistisse de correr atrás de um antílope. Ele, então, se sentaria no chão, desanimado e extremamente triste. Nessa hora, outro leão se aproximaria e lhe indicaria um psiquiatra e um antidepressivo.

Segundo as pesquisas, um leão falha de 7 a 10 vezes antes de ter sucesso em uma caçada, ou seja, 85% da sua principal ocupação pode ser considerada um grande fracasso. Olhando por esse ângulo, a depressão causada pelo fracasso profissional parece, um tanto quanto, sem sentido, não é? Muitas vezes, ao nos compararmos aos animais, percebemos o quanto a nossa inteligência parece mais um fardo do que propriamente uma vantagem. É a tal perda da inocência e naturalidade tão citada nos textos bíblicos.

Sob outra perspectiva, podemos concluir que não existe erro na natureza. O erro é o nome que damos aquilo que não aconteceu conforme esperávamos, imaginávamos, gostaríamos. Sempre dentro de uma maneira específica de idealizar o resultado. O "erro" de um leão pode ser o "acerto" de um antílope. Naquele dia, o antílope foi mais esperto e ligeiro, apenas isso. "É o que tinha que ser", esse é o mantra que precisamos internalizar, nem tudo está sob o nosso controle. Pensar a partir dessa perspectiva abre os caminhos e deixa a vida mais leve e fluida.

Dessa forma, você para de "dar murro em ponta de faca" e começa a enxergar as oportunidades que estavam à sua disposição, sem que você pudesse notá-las. Programar, fechar e idealizar o caminho é um "tapa-olho de burro" que limita a nossa visão, ao olhar para o lado e expandir a consciência, um mundo de novas possibilidades pode se abrir.

Estudos realizados com crianças mostraram que, aquelas que não dão muita importância ao fato de errar, aprendem em média cinco vezes mais rápido em comparação as outras crianças. Qual o fator que leva essas crianças a não darem tanta atenção ao erro? Elas estão se divertindo, extremamente presentes e imersas naquilo que fazem.

Aqui, se encontra uma grande lição: quando o valor intrínseco daquilo que fazemos nos apaixona e nos diverte, a nossa criatividade e resiliência podem aflorar, o que nos permite aprender com mais rapidez e competência. É como eu sempre digo: sem diversão não tem solução! Ter uma paixão genuína naquilo que realizamos é um dos grandes segredos do sucesso genuíno.

A falta de resiliência ao erro é um grande inimigo das novas gerações

Achar que existe um caminho rápido e garantido, um caminho ideal que vai nos levar ao sucesso e à felicidade é um mal do nosso tempo. Como diz o dito popular: "A rapadura é doce, mas é dura! ".

Como os valores midiáticos e redes sociais ajudam a construir um mundo de "faz de conta" em nosso imaginário, no qual as pessoas ricas e "bem-sucedidas" são modelos de sucesso e felicidade, começamos a acreditar que existam fórmulas seguras para se chegar "lá" (ninguém vai te contar que esse "lá" não existe, é apenas um ideal fantasioso, a cenoura na frente do coelho).

Ao seguir essas fórmulas garantidas de sucesso, aos poucos, os mais jovens irão perceber que esse caminho é um pouco mais espinhoso do que lhes havia sido prometido. De qualquer forma, escolher o caminho mais fácil torna-se, com o tempo, o caminho mais difícil. Escolher uma profissão baseando-se apenas na remuneração financeira, sem um sentido de propósito ou de paixão genuínos, pode ser ingrato e infrutífero.

Se o resultado daquilo que fazemos importa muito mais do que a coisa em si, diminuímos bastante a nossa capacidade de suportar e ultrapassar os obstáculos em nosso caminho.

Me diga, a melhor maneira de aprender a ultrapassar um obstáculo, seria evitando-o? Esse exercício de encará-lo de frente e ultrapassá-lo não nos deixaria mais preparados, da próxima vez? Isso não seria uma experiência mais rica, educativa e completa? Como dizia Lao-Tsé: "forte é quem aos outros vence, poderoso é quem vence a si mesmo. "

"O meu maior prazer está naquilo que antecede o que chamam de sucesso"
(Thomas Edson)

Errar mais, o segredo para ir mais longe

Por isso, só lhe recomendo uma coisa: que você erre muito, erre seguidamente, permita-se errar e, mesmo assim, não desista. Em relação ao aprendizado, o erro é mais importante que o acerto. Quem não tenta, não erra, mas também não aprende. A função do erro não é nos fazer parar, e sim, nos estimular a avançar, podendo, assim, tatear e expandir os limites estabelecidos por nós mesmos.

É o que nos permite romper o "cercadinho" da segurança, do controle e da previsibilidade no qual nos refugiamos e, a partir do qual, passamos a evitar qualquer forma de risco. Buscamos um lugar para ancorar, a satisfação da segurança, mesmo que ilusória. Temos medo de mudar, mas o risco maior é, exatamente, não mudar, não seguir o fluxo da vida e ceder ao conforto e à estagnação.

Quem não olha para os seus erros, não cresce. O erro é a grande alavanca do auto aperfeiçoamento e esse nunca cessa, é para a vida inteira.

Sobre o Autor

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro “O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal” defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Sobre o blog

Aqui, Nuno Cobra Jr. propõe uma pequena revolução: pensar o corpo e o treinamento físico através de um prisma filosófico, integral e multidisciplinar. Ele pretende dar voz e visibilidade ao Movimento Treinamento Consciente, uma resposta à cultura de treinamento baseada na dor e no sofrimento. Esse movimento agrega fisioterapeutas, doutores em educação física, fisiologistas, ortopedistas, cardiologistas e nutricionistas, entre outros. A missão desse espaço é criar uma comunicação entre estes profissionais, expandir o conhecimento e fomentar na população a consciência no cuidado com o corpo.

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