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O vírus mais perigoso não vem da China

Nuno Cobra Jr.

18/03/2020 04h00

Crédito: iStock

O cérebro humano é uma máquina perfeita de processamento e arquivamento de dados, as formas como o nosso cérebro pode ser condicionado e dirigido são amplamente estudadas pela psicologia e pela neurociência comportamental. Fazendo uma analogia, somos uma espécie de "robôs orgânicos", seres programados e teleguiados por informações que nos sãos ensinadas e impostas pela cultura, pelo marketing e pelo meio em que vivemos.

A engrenagem social nos ensina a obedecer às regras e aos valores estabelecidos e, assim, passamos a fazer parte do sistema de produção e consumo. Esse sistema controla os seus desejos, a forma como você pensa, ou mesmo, a maneira como você enxerga o seu próprio corpo. Por exemplo, os modelos de beleza mudam acentuadamente a cada década, de acordo com lobbies e interesses específicos. Ao seguir as novas modas de consumo ligado ao corpo, você está obedecendo a comandos psicológicos subliminares.

Aprendendo a odiar

O vírus mais perigoso não vem da China. Como você irá perceber, existem outros tipos de vírus que habitam entre nós e já são velhos conhecidos do ser humano. Como nos acostumamos a eles, já não percebemos o seu poder de morte e destruição O primeiro é o vírus do ódio e da intolerância. Na Itália, a polarização política alimentou a viralização da desinformação e, consequentemente, essa divisão social terminou levando a saúde pública ao esgotamento. Ou seja, o vírus mais perigoso está dentro do seu próprio celular.

Como você viu na introdução, a nossa mente é controlada pelo "joystick" do marketing social. O mais incrível é que esse sistema nos ensina até aquilo que devemos odiar ou não, você duvida? Se fizermos uma pesquisa no Brasil, perguntando qual o ser humano mais vil e repugnante que habita nosso país, um grande número de pessoas irá responder que é o líder da esquerda e uma outra porcentagem, similar, dirá que é o líder da direita.

Os avanços da neurociência trouxeram um efeito colateral, agora os cientistas sabem exatamente como os sistemas de decisões operam em seu cérebro, podendo influir sobre os seus impulsos de consumo, ou quaisquer outras formas de escolha. As eleições são um bom exemplo disso.

O medo é uma das mais antigas estratégias de dominação e controle. Podemos afirmar, sem susto (risos), que vivemos em uma sociedade baseada no medo, ele está por trás das suas motivações mais básicas, sem que você possa perceber. Na política, isso torna-se ainda mais agudo.

Assisti, recentemente, a uma reportagem explicando como os marqueteiros, de ambos os lados, manipulam a comunicação para influenciar e definir o seu voto.
Eles conduzem entrevistas com grupos de interesse específicos e, a partir dessas descobertas, criam linhas de comunicação com esses grupos, visando atingir, diretamente, os seus medos mais profundos e viscerais. Ou seja, você acha que votou no melhor candidato, mas, na verdade, você votou contra aquele candidato que mais o assusta.

Tomar decisões baseadas no medo nunca é uma boa solução, mas, afinal, o que você queria? Em um sistema que já começa com o nome "Partido", você esperava o quê? União em direção ao bem comum?

Não contentes em estimular o seu medo, eles criam estratégias de marketing para fomentar e cultivar o ódio, via redes sociais, aumentando, distorcendo e manipulando informações para demonizar o seu principal concorrente. O ser humano comum não está acostumado a pensar de forma complexa e filosófica. Ele não sabe que é muito fácil reforçar e defender, de forma convincente, qualquer ponto de vista que seja pertinente.

Na Grécia antiga, havia competições dessa nobre arte da oratória e do convencimento, provando que uma verdade mais profunda só pode ser atingida a partir de diversos pontos de vista complementares.

A verdade é uma senhora de respeito, mas sofre de múltiplas personalidades, às vezes ela se prostitui, servindo os interesses de algum lobby oportunista; outras vezes, ela surge travestida de falsos conceitos; por vezes, ainda, ela é amordaçada e maltratada por senhores autoritários, agressivos e controladores. Os donos da verdade, na realidade, só podem ser donos de uma pequena parte dela, uma vez que, para juntar todos os pedaços dessa senhora, teriam que estar abertos a ouvir e acolher os argumentos dos seus opositores, entre tantos outros.

O que acontece com um organismo que luta contra si mesmo? Alimentar o extremismo e a luta ideológica funciona como um elemento de separação, ódio e intolerância social, impedindo que possamos evoluir como nação e indivíduos. O coronavírus vem apenas realçar essa problemática, e, agora, ele nos convida a deixar a ideologia de lado.

A família foi expandida

O segundo vírus, igualmente letal, é o vírus da individualidade. Vivemos de forma coletiva, mas priorizamos os interesses individuais, esse é o principal conflito. O que impera é a lei do faroeste: cada um por si e seja o que Deus quiser. Quando um país entra em litígio com outro, como na guerra do petróleo atual, ele não se importa com o impacto que essa ação irá causar em milhões de vidas, ele apenas defende os seus interesses imediatos. Enquanto pessoas, grupos ou países agirem assim, seguimos no caminho da injustiça social, da intolerância e da guerra.

A pandemia vem nos mostrar que estamos todos no mesmo barco, forçando os líderes a abandonarem suas crenças ou ideologias e trabalharem juntos, porém a ficha ainda não caiu para muitas pessoas, uma grande parte delas está em pânico, correndo aos supermercados para garantir os seus interesses pessoais e, assim, acabam desabastecendo aqueles que irão logo em seguida.

Outra parte da população ignora esse chamado coletivo, negando-se a diminuir o convívio social. Influenciados pelo marketing digital político, eles ainda não entenderam que são potenciais transmissores de um vírus que se propaga em alta velocidade, atingindo grupos de risco específicos, ameaçando o sistema de saúde público e colaborando com o aumento do número de mortes.

A nossa miséria coletiva é fruto da nossa miséria individual. Qual o resultado de muitas misérias juntas? A ignorância corporal, somada à pobreza mental e à miséria espiritual, não podem dar um bom resultado.

Primeiro, precisamos mudar como indivíduos, e, só então, mudaremos como coletivo.

Hora de manter a calma e se retirar. Para quem tem crianças em casa, isso vai exigir muita criatividade e disposição. Recomendo o site "Território do brincar", com dicas incríveis de brincadeiras para os pequenos. Aqui em casa, tivemos a ideia de nos juntarmos ao nosso vizinho nessa quarentena, assim os nossos filhos podem brincar juntos, o que ajuda muito nessa situação.

Hora de abandonar a negação e começar a agir pelo bem coletivo. Imagine como irá evoluir a covid-19 em São Paulo, uma cidade que nunca para, onde milhões de pessoas usam o transporte público diariamente? E no Rio de Janeiro, uma cidade que vive em grandes aglomerações à beira mar e nas favelas? Como a saúde pública, já convalescente, vai dar conta de uma explosão repentina e urgente?

A questão não é só como você é afetado, mas também como evitar ser um transmissor desse vírus. A nossa família ficou menor, e, ao mesmo tempo, foi expandida: a nossa família agora é toda a humanidade. Hora de pensar no coletivo e fazer a sua parte.

Sobre o Autor

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro “O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal” defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Sobre o blog

Aqui, Nuno Cobra Jr. propõe uma pequena revolução: pensar o corpo e o treinamento físico através de um prisma filosófico, integral e multidisciplinar. Ele pretende dar voz e visibilidade ao Movimento Treinamento Consciente, uma resposta à cultura de treinamento baseada na dor e no sofrimento. Esse movimento agrega fisioterapeutas, doutores em educação física, fisiologistas, ortopedistas, cardiologistas e nutricionistas, entre outros. A missão desse espaço é criar uma comunicação entre estes profissionais, expandir o conhecimento e fomentar na população a consciência no cuidado com o corpo.

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