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Como nos ensinaram a gostar de sofrer?

Nuno Cobra Jr.

13/05/2020 04h00

Crédito: iStock

Certa vez, no parque Ibirapuera, pude ouvir uma mulher comentar com sua amiga:

"O meu personal é ótimo! Ele é super-rigoroso, fica gritando o tempo inteiro, parece um sargento (risos). Ele nunca me dá moleza, eu saio da aula quase morta. Menina! Eu fico praticamente destruída depois da aula. No dia seguinte, parece que levei uma surra! Parece que fui atropelada por um caminhão, eu mal consigo sair da cama!" (risos)

E ela continuava, empolgada:

"Eu demoro de dois a três dias para me recuperar. Mas está valendo a pena o sacrifício. Eu vou te indicar o meu personal, ele é maaaaravilhoso!"

Pois é, essa visão do treinamento associada a dor e ao sofrimento, infelizmente, é compartilhada pela maioria da população. De certa forma, por meio de depoimentos como esse, constatamos que ainda vivemos na Idade Média do treinamento corporal. Precisamos, urgentemente, trazer um pouco de luz ao conhecimento do corpo. Que venha logo o Iluminismo!

Na Europa, depois da peste negra, o conhecimento humano deu um salto exponencial, todo o obscurantismo e as ideias retrógradas ficaram para trás, surgindo assim, uma nova era, priorizando os valores humanos, as artes e a expansão da consciência. Agora, no treinamento, está ocorrendo esse mesmo processo, após 40 anos de hegemonia, o modelo do fitness já caducou, tudo o que você conhece como treinamento físico irá mudar radicalmente nas próximas décadas. A indústria do fitness provavelmente vai se reinventar e sobreviver, mas o futuro do treinamento pertence ao wellness, ou seja, a formas de treinamento ligadas à saúde a ao bem-estar.

No entanto, o legado do fitness deixou um rastro devastador na maneira como a maior parte da população entende o treinamento e se relaciona com o próprio corpo. Ao propagar fórmulas milagrosas e radicais de dieta e treinamento, a "indústria do corpo perfeito" causou um efeito colateral de proporções incomensuráveis na saúde pública. Sem que as pessoas saibam disso, vivemos a era mais obscura da história do treinamento físico.

Para dar apenas um exemplo, só no EUA, mais de três milhões de pessoas consomem anabolizantes com finalidades estéticas, caso se multiplique o número de usuários pelos vinte países mais desenvolvidos, chegaremos a números assustadores, e isso representa apenas uma pequena parte desse impacto negativo, que se estende à explosão dos transtornos alimentares, da anorexia e da depressão, entre diversos outros desequilíbrios. Todos esses distúrbios são alavancados pela insatisfação de não conseguir se adequar a um modelo cada vez mais insano e rigoroso de beleza corporal.

Já está cientificamente comprovado (Macpherson – Sánchez, 2005), estimular a busca do "corpo perfeito" fomenta o mercado bilionário das dietas radicais, um dos principais fatores do aumento da obesidade no mundo. Da mesma forma, o mercado bilionário dos treinamentos da moda estimula modelos de treinamento radicais, colaborando no aumento do sedentarismo, por mais paradoxal que isso possa parecer, dificultando, imensamente, a adesão do aluno ao treinamento e aumentando absurdamente lesões ligadas à sobrecarga e aos excessos.

Pois é, a nobre arte da educação física tem funcionado como uma espécie de "deseducação física", lhe ensinando a maltratar e torturar o seu próprio corpo, até que a dor e a exaustão sejam insuportáveis. Infelizmente, ainda vamos carregar essa herança por um longo período.

O culto ao fortalecimento muscular

Hoje vemos nas academias, rotineiramente, milhões de jovens entre 14 e 35 anos levantando cargas pesadas, seguindo fórmulas radicais de treinamento, tomando anabolizantes e destruindo de forma precoce a própria coluna e articulações. Tudo isso para estar em conformidade com esse padrão de beleza vendido pela indústria do fitness.

De certa forma, ainda estamos nos primórdios do treinamento físico, a popularização desse processo se iniciou na década de 1980 e, pelo visto, começamos com o "pé esquerdo". Em vez de seguirmos os grandes mestres da consciência corporal e do equilíbrio, seguimos o modelo de treinamento recomendado pelo Arnold Schwarzenegger e pelo Sylvester Stallone, grandes astros de Hollywood, que colaboraram, decisivamente, com a fixação desse modelo no imaginário coletivo, na década de 1990.

Devido ao fenômeno das academias, grande parte do treinamento físico feito no mundo é o que podemos chamar de um treinamento estético, ou "treinamento cosmético". Quanto mais pressa na busca do corpo perfeito, mais rápido você consome suas articulações e cartilagens. Saúde e performance são os dois extremos do treinamento físico. Na realidade, quanto mais nos aproximamos do espectro da performance, menos saudável é o treinamento. Conheço atletas que aos 30 anos de idade já passaram por uma dezena de cirurgias ortopédicas.

Quase tudo o que o grande público conhece como treinamento físico é uma forma muito específica de se conceber a saúde corporal. Essa visão é contaminada pela herança militar do treinamento e pelo lobby do bodybuilding (o culto ao fortalecimento muscular). Os conceitos criados pelos bodybuilders ou "marombeiros", como são popularmente conhecidos, dominam o ambiente de treinamento. Eles já estavam lá quando a indústria do fitness começou a florescer na década de 1980, dessa maneira, foi quase inevitável esse domínio.

Para os marombeiros, faz sentido sofrer e sentir dor no treinamento se isso se traduz em mais músculos no menor tempo possível. Aqui, se iniciou toda essa confusão e essa enorme distorção, uma vez que esse modelo passou a ser indicado para o restante da população.

A polarização do treinamento

Em meu livro: "O músculo da alma, a chave para a sabedoria corporal", fruto de uma pesquisa que durou 12 anos, analiso detalhadamente a indústria do treinamento físico, explicando como as modas do treinamento distorcem os princípios fundamentais da saúde corporal.

O primeiro registro histórico do treinamento remonta a 3.000 a.C., quando o imperador e general chinês Hong Ti percebeu que treinar fisicamente seu exército seria uma vantagem estratégica. O treinamento físico nasceu como uma prática militar e esses conceitos fundaram a própria escola da educação física no mundo. Agora você entendeu por que muitos professores agem como um sargento? A cultura do treinamento é profundamente influenciada pela cultura militar.

Na Grécia antiga se iniciou a polarização atual, gerando duas linhas opostas de abordagem e visão. Essa dicotomia nasce do embate entre as duas principais vertentes do treinamento: o modelo de corpo filosófico e criativo, ligado à cidade de Atenas, e o modelo de corpo rígido e militar ligado à cidade de Esparta. Transpondo essa polarização para os tempos atuais, vemos, basicamente, dois tipos de profissionais do treinamento: aqueles que seguem as modas do treinamento, fórmulas mais comerciais e apelativas de desenvolvimento corporal e, do outro lado, os treinadores que trabalham com atletas, defendendo a moderação e o equilíbrio corporal como princípios fundamentais.

A questão primordial enfrentada pelos treinadores esportivos é como atingir o máximo da performance física de um atleta sem correr o risco de lesões. Pois bem, essa formula só de fecha por meio de modelos de treinamento ligados à moderação. Para aqueles que estão doutrinados no modelo do fitness, sugiro pesquisar o significado da palavra moderação no dicionário, lá vai estar escrito: moderação = na medida exata, sem exagero. Curiosamente, os treinadores de alta performance não se utilizam de métodos ou estratégias ligadas ao bodybuilding e a modas do treinamento.

Olha só como a nossa visão de mundo pode ser condicionada e direcionada pelo mercado de consumo: a indústria do treinamento é o único lugar, no universo conhecido, a negar a lei da moderação e do equilíbrio, lhe ensinando que a medida exata não funciona e que sem sofrimento você não atingirá bons resultados, quando, na realidade, o que ocorre é exatamente o contrário. Obviamente, caso a sua meta seja ficar extremamente musculoso, rígido ou "bombado" o mais rapidamente possível, sugiro continuar seguindo o modelo do bodybuilding. Porém, sugiro também perguntar a um ortopedista ou ao fisioterapeuta quais as consequências desse modelo no médio e longo prazo. De qualquer forma, devemos respeitar as escolhas de cada um, afinal, existe gosto para tudo.

O que não vale é querer impor a sua verdade a todos e defender o absolutismo corporal, simplesmente porque ele é uma grande mentira. Na realidade, existem diversas maneiras de se chegar a um mesmo resultado. A realidade é complexa e multidimensional, ela sempre desmente aqueles que tentam reduzi-la, estreitá-la, e se autoproclamam como os donos da verdade. No fundo, é tudo apenas uma questão de marketing, ou seja, como as principais marcas esportivas do planeta dominam e controlam as principais modas ligadas ao treinamento, obviamente, defendem e sustentam, apoiadas em algumas pesquisas, que as opções escolhidas por elas são as melhores escolhas disponíveis, afinal, esse "monopólio da verdade" lhes garante a maior fatia desse mercado.

"É uma filosofia que causa lesões e que enchem os consultórios de fisioterapia hoje em dia. A consequência mais comum ao adotar esta estratégia do "sem dor, sem ganho" é uma lesão ou a desistência da atividade física" — Dr. Diego Leite de Barros, profissional de educação física e fisiologista do Hospital do Coração

Como o cérebro aprende a gostar de sofrer

O modelo de pensamento estimulado pela nossa sociedade, o racionalismo utilitário, nos ensina, desde pequeno, que a vida é um eterno sacrifício em busca de recompensas. Dessa forma, quando um aluno chega na academia, ele já está comprado pela ideia de que a única forma de obter resultados seria seguir o modelo hegemônico, aprendendo a suportar a dor e o sofrimento.

Caso ele consiga ultrapassar a barreira "intransponível" dos três meses iniciais, o que a imensa maioria das pessoas não irá conseguir, as chances de aderir a esse modelo aumentam consideravelmente.

Um processo chamado "retroalimentação mental" irá colaborar nesse aprendizado. Como funciona isso? Após três meses de dor e sacrifício, começam a se reforçar em seu cérebro os benefícios e as recompensas dessa atividade. Caso o aluno consiga resistir a esse modelo mais seis meses, redobrando essa aposta, o seu cérebro irá aprender a associar a dor a algo benéfico e positivo. No fundo, é apenas uma questão de tempo e repetição incessante, até que o cérebro se condicione a um novo aprendizado, como qualquer coisa em nossa vida.

Com o tempo, essa associação pode se transformar, a retroalimentação mental do "dói, mas é positivo" pode evoluir para o "dói, mas, ao mesmo tempo, me dá prazer", após infinitas repetições dessa experiência. Pois é, quem não chora, não gama! Parodiando uma frase bíblica, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um aluno do fitness conseguir alcançar o sonho de um "corpo perfeito". Mesmo aqueles que conseguem se aproximar desse ideal, nunca estão satisfeitos, afinal, sempre dá para "melhorar" mais um pouquinho.

Por incrível que pareça, o mercado tornou-se um grande inimigo da adesão ao treinamento físico. As academias querem que o aluno volte no dia seguinte, mas o fazem passar por um sofrimento indescritível e cruel, vai entender!

O ser humano, como todos os animais, foge da dor e do sofrimento, dessa forma, quando vivemos uma experiência agradável e prazerosa, queremos repeti-la, porém, quando vivemos uma experiência desagradável e dolorosa, fazemos de tudo, mesmo que de forma inconsciente para evitar essa experiência

A mentalidade fitness transformou a atividade física em uma pílula ruim que somos obrigados a tomar para ganhar músculos e emagrecer e, como bem sabemos, toda obrigação torna-se um sinônimo de chatice, algo que buscamos evitar a todo custo.

O mercado não aprendeu nada com o sucesso do Pilates, um modelo de treinamento extremamente popular e favorável à adesão, simplesmente, devido ao fato de ser acessível e adotar a medida exata como um princípio fundamental.

Devido ao meu livro, atualmente, sou reconhecido como uma das principais vozes da renovação do treinamento físico. Essa é a minha colaboração na reeducação física da nossa sociedade, espero que, no futuro, nenhuma forma de treinamento seja legalizada caso não atenda os critérios de recomendação de, pelo menos, mais três áreas complementares do conhecimento corporal: a ortopedia, a fisioterapia e a cardiologia. Não podemos indicar um método de treinamento sem saber as consequências desse modelo no médio e longo prazo.

Detalhe: segundo meus estudos, as modas atuais são veementemente criticadas e vetadas por essas três áreas complementares, como também por alguns dos maiores estudiosos do treinamento físico, como, por exemplo, o Dr. Turíbio Leite de Barros e o Dr. Paulo Zogaib. Na cardiologia ligada ao esporte, podemos citar o Dr. Nabil Ghorayeb e, na ortopedia, o Dr. Moisés Cohen, ambos, grandes autoridades em suas respectivas áreas de atuação. Praticamente, a maioria dos profissionais, principalmente aqueles que são mais experientes e conscientes, condenam os modelos radicais de treinamento. Afinal, que ética é essa que nos proíbe de analisar a realidade dos fatos? Devemos manter a ética profissional e favorecer os grandes lobbies ou devemos, acima de tudo, favorecer a população? Eis o dilema!

O melhor exercício não é aquele que queima mais calorias, mas aquele que você gosta de fazer. Esse, sim, vai dar resultado. O salto mais essencial é desenvolver uma relação de prazer com a atividade corporal. Para ser efetiva a atividade física deve ser incorporada a uma rotina, esse é o grande segredo. Caso essa atividade seja prazerosa, lúdica e equilibrada, o desafio será muito mais acessível e convidativo para uma grande parcela da população.

O mercado acabou complicando algo que é muito simples, Na realidade, só existe um exercício que funciona: aquele que você consegue manter com regularidade. Ache uma atividade que lhe sirva, sob medida para o seu perfil, algo que você goste de fazer, e você terá resolvido a questão mais crucial do treinamento físico.

"O principal conceito da "nova ginástica" é torná-la acessível a todos aqueles que necessitam praticar atividade física, incluindo homens, mulheres, crianças, gordos, magros, fortes, fracos, enfim, qualquer pessoa. A atividade corporal deve desenvolver flexibilidade, graça, agilidade e, principalmente, melhorar a saúde" — Diocletian Lewis, fisiologista, 1862

Obs: Essa frase foi dita por um fisiologista norte-americano que revolucionou o treinamento físico. Ele lutou a vida inteira contra os modelos hegemônicos de treinamento ligados a cultura militar que, na sua opinião, levavam à rigidez corporal e ao excesso de músculos. É incrível como a história sempre se repete.

Sobre o Autor

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro “O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal” defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Sobre o blog

Aqui, Nuno Cobra Jr. propõe uma pequena revolução: pensar o corpo e o treinamento físico através de um prisma filosófico, integral e multidisciplinar. Ele pretende dar voz e visibilidade ao Movimento Treinamento Consciente, uma resposta à cultura de treinamento baseada na dor e no sofrimento. Esse movimento agrega fisioterapeutas, doutores em educação física, fisiologistas, ortopedistas, cardiologistas e nutricionistas, entre outros. A missão desse espaço é criar uma comunicação entre estes profissionais, expandir o conhecimento e fomentar na população a consciência no cuidado com o corpo.