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Revolução no treinamento físico

Nuno Cobra Jr.

27/05/2020 04h00

Crédito: iStock

Imagine uma forma de atividade física que faça você despertar motivado e excitado, mesmo às 6h da manhã. O seu coração palpitante anseia, incontrolavelmente, por reviver esta experiência tão gratificante e estimulante.

Na realidade, você está totalmente viciado nesta atividade, devido ao fato de ela ser intensamente divertida. A dose de adrenalina produzida por tal experiência causa uma dependência física intensa e incontrolável.

Quem já foi surfista se identifica com o relato acima. Eu mesmo já acordei às 6hs da manhã e fui surfar em dias extremamente frios no sul do país, em que o mar estava absolutamente congelante. A partir desta experiência, faço a seguinte pergunta: acordar para praticar essa atividade requer esforço ou força de vontade? Nem um, nem outro. Na realidade, mal podemos nos conter em relação à expectativa de repetir essa experiência prazerosa.

Então, como a ciência explica a dificuldade de aderirmos à atividade física? Ela defende que os homens, assim como os animais, têm três estímulos básicos que o fazem se movimentar: a comida, o sexo e a fuga de predadores.

O nosso corpo busca economizar energia. Sendo assim, uma atividade física que não inclua os três estímulos citados anteriormente não seria algo natural ou instintivo aos seres humanos. Isso explicaria por que fugimos dos exercícios. Porém, refletindo com mais cuidado, onde a teoria falha?

Esqueceram-se de incluir o "brincar". Mesmo os animais adultos, como os felinos, primatas, golfinhos e elefantes, gastam horas diárias em brincadeiras diversas e, nesta hora, a sua última preocupação é economizar energia.

Os adultos também são carentes de atividades lúdicas e prazerosas. Para boa parte das pessoas, a única atividade divertida e relaxante disponível está ligada ao consumo de bebidas alcoólicas e a vida noturna. Brincar é essencial ao ser humano, afinal, brincar é celebrar a vida, é estar vivo da forma mais intensa e natural possível. É estar em "flow", o que permite voltar a se reconectar consigo mesmo e com o todo.

Além disso, o brincar, a descoberta do prazer em explorar o corpo e suas possibilidades, traz um imenso ganho cognitivo. O que se traduz em mais concentração, inteligência, foco, controle emocional, jogo de cintura e assertividade, entre outros. O exercício, dessa forma, irá estimular o conhecimento de si, uma exploração das habilidades cognitivas e motoras, como também um desenvolvimento da criatividade.

O exercício passa a não ser mais um recurso ligado a um prêmio futuro, ao emagrecimento ou ficar "sarado". O brincar já é o objetivo e o prêmio em si. A minha experiência reafirma esse fato: caso uma atividade não seja estimulante e faça sentido, por si mesma, independentemente dos resultados prometidos, o aluno terá mais dificuldade em aderir ao treinamento.

É assim que treinar pode vir a ser o momento mais divertido do seu dia, colaborando decisivamente em sua regularidade, consciência e comprometimento. Desenvolver formas de atividade física equilibradas, lúdicas e prazerosas representará uma grande revolução no mercado de treinamento, nas próximas décadas.

O estilo de vida moderno nos leva ao adoecimento

Nos dias atuais, crianças e adolescentes passam em média de oito a 12 horas por dia em atividades estáticas, sentados em salas de aula ou na frente de telas como televisão, celular ou computador. Se não criarmos um tipo de atividade corporal intensamente divertida, equilibrada e interessante, que rivalize com o vício dos eletrônicos, o futuro da humanidade está em risco. O nosso futuro será feito de pessoas cada vez mais obesas e doentes.

Desenvolver alternativas de treinamento que sejam divertidas e estimulantes pode ser uma grande saída para este cenário alarmante, tanto para as crianças como para o adulto. Sempre que vivemos uma experiência agradável e prazerosa, queremos repeti-la. No entanto, sempre que vivenciamos algo desagradável e doloroso, tendemos a fugir desta experiência, mesmo que de forma inconsciente.

Colocar o corpo em movimento por meio de uma atividade prazerosa deixa de ser uma obrigação e passa a ser um momento de relaxamento e diversão. Assim como uma criança, que se entrega a uma brincadeira sem ter hora para acabar.

A Carol, minha esposa, viveu uma experiência interessante e reveladora neste sentido. Estávamos em um parque infantil com a nossa filha de 4 anos, e elas subiram em um daqueles brinquedos clássicos, o trepa-trepa.

Um menino que subiu logo em seguida perguntou surpreso:

-Porque você subiu aqui?
-Para brincar, ela disse
-Você brinca? Disse espantado o menino
-Claro que eu brinco, não é legal brincar?
– Eu adoro, responde o menino, ainda perplexo.

Logo depois, o menino gritou bem alto para a sua irmã de sete anos que estava ao lado:

– Olha Isabel! Um adulto que brinca!, Isso não é incrível!

O meu sonho é que em um futuro, não muito distante, o seu treinador, em vez de lhe dizer "Vamos treinar?", que é entendido como "Vamos sofrer?", possa, sedutoramente, lhe propor: "Vamos brincar?"

"O mundo é um playground, nós sabemos disso quando somos crianças, mas nos esquecemos disso quando nos tornamos adultos"

Zooey Deschanel

Sobre o Autor

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro “O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal” defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Sobre o blog

Aqui, Nuno Cobra Jr. propõe uma pequena revolução: pensar o corpo e o treinamento físico através de um prisma filosófico, integral e multidisciplinar. Ele pretende dar voz e visibilidade ao Movimento Treinamento Consciente, uma resposta à cultura de treinamento baseada na dor e no sofrimento. Esse movimento agrega fisioterapeutas, doutores em educação física, fisiologistas, ortopedistas, cardiologistas e nutricionistas, entre outros. A missão desse espaço é criar uma comunicação entre estes profissionais, expandir o conhecimento e fomentar na população a consciência no cuidado com o corpo.